O processo de
desenvolvimento de um novo fármaco é constituido por três etapas principais. Nomeadamente,
a última visa a realização do estudo clínico, em que o composto será aplicado
em utentes para serem estudados os seus efeitos farmacodinâmicos,
farmacológicos e clínicos, identificar reações e averiguar sua segurança e
eficácia.
Nos últimos anos,
tem-se debatido a aplicação da ética nos estudos clínicos.
As controvérsias têm-se
centrado em três problemas: o cuidado base que deveria ser um direito dos
participantes nesses mesmos estudos, a disponibilidade de intervenções que se
provaram úteis e a qualidade do consentimento informado.
A persistência destas
mesmas controvérsias demonstra que, mesmo existindo diretrizes éticas, estas
podem ter diversas interpretações.
Princípios Éticos
|
Parceria Colaborativa
|
Valor Social
|
Validade Ciêntifica
|
Seleção da População para Estudo
|
Relação Risco-Benefício Favorável
|
Revisão Independente
|
Consentimento Informado
|
Respeito pelos Participantes e Comunidade de Estudo
|
A observação de casos
reais ilustra como os requisitos podem orientar a avaliação ética da pesquisa
clínica. Para a validação de um estudo clínico todos os requisitos precisam de
ser cumpridos, porém 3 destes são particularmente relevantes.
Valor Social
O valor da pesquisa
para a comunidade de estudo deve ser explícito. Sem este requisito, poderá ser
considerado exploração, pois expõe os participantes a riscos sem razão
aparente. No entanto, determinações de valor social são sempre incertas e
probabilísticas, implicando julgamentos sobre a utilidade da pesquisa para a
comunidade de estudo.
Validade
Ciêntifica
Um estudo de pesquisa
deve ser elaborado para que os resultados sejam úteis no contexto do problema
de saúde, no respetivo país onde está a ser desenvolvido. As intervenções
necessárias à realização da pesquisa devem ser ponderadas para garantir que o
projeto seja útil na implementação de mudanças apropriadas no Sistema de Saúde.
Além disso, o design
do estudo deve atingir os objetivos da pesquisa, sem negar os serviços de saúde
aos quais os participantes têm direito. Dito isto, deve ser planeado de forma a
ser viável de acordo com o ambiente onde está a ser realizado.
Relação
Risco-Beneficio
Toda e qualquer
pesquisa clínica deve oferecer aos participantes e à comunidade uma relação
risco-benefício favorável, ou, se os potenciais riscos suplantarem os
benefícios, esses devem ser justificados através do valor social.
Imagem 1 – Ensaios
Clínicos
Alvo de inúmeras
controvérsias é a realização de estudos clínicos em países em desenvolvimento.
Recentemente, foi aprovada
nos Estados Unidos a vacina contra o Rhesus RotaVírus TetraValente (RRV – TV),
após terem sido efetuados estudos em países desenvolvidos que demonstraram uma
eficácia de até 68% na prevenção de diarreia.
No entanto, logo após
a sua aprovação, a vacina foi retirada do mercado devido a um conjunto de casos
de intussuscepção. A toma desta vacina representava então um risco adicional de
0.01 % de desenvolver esta complicação.
Deverão os
ensaios clínicos da vacina RRV – TV proceder conforme planeado nos países em
desenvolvimento?
Na avaliação ética
deste estudo específico, os requisitos de seleção justa de participantes e
relação risco-benefício são bastante relevantes.
Nos países
desenvolvidos, a relação risco-benefício não é favorável pois, na prevenção de
1 morte por rotavírus existe risco de ocorrerem entre 20 a 40 casos de intussuscepção.
Já nos países em desenvolvimento, devido à carga de doenças subjacente, a
relação risco-benefício é bastante diferente. Nestes países, o rotavírus causa
a morte de 1 em 200 crianças enquanto a vacina causa 1 caso de intussuscepção
em 10.000 crianças.
São evitadas cerca de
50 mortes por cada caso de intussuscepção.
Esta diferença nas
taxas de risco-benefício é fundamental na continuação da realização de
pesquisas de uma vacina para o RRV – TV em países em desenvolvimento, pois não
poderia ser realizada num país desenvolvido.
Seguindo para
uma perspetiva mais tecnológica, podemos considerar o exemplo da Inteligência
Artificial (IA).
Atualmente, estamos num ponto sem retorno no qual o nosso futuro passará
naturalmente pela incorporação da inteligência artificial no nosso quotidiano.
Dito isto, é fundamental investigar as melhores abordagens à sua integração.
À medida que a IA se populariza, questões levantadas por
especialistas sobre ética e moral tornam-se impossíveis de ignorar.
A aplicação contínua e ampla da IA em diversos setores, mais
especificamente no da saúde, irá gerar um impacto ainda maior do que o atual no
mercado de trabalho. Apesar da tecnologia estar presente em praticamente todo o
lugar, ainda há um longo caminho a ser percorrido até uma incorporação quase
total da Inteligência Artificial neste setor.
Em suma, é imperativo que se
amplie a discussão pública (sobretudo de natureza ética) sobre estes temas,
pois é daí que virão políticas e iniciativas empresariais e cidadãs que poderão
revolucionar certos aspetos da ciência.
Bibliografia
Ezekiel J. Emanuel. David W. Christine G. What Makes Clinical Research
Ethical. Jama. 2000; 283(20): 2708-2710. Available from: https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/192740?resultClick=1
Ezekiel J. Emanuel. David W. Jack K. Christine G. What
Makes Clinical Research in Developing Countries Ethical? The Benchmarks of
Ethical Research. The Journal of Infectious Diseases. 2004; 189(5):
930-937. Available from: https://doi.org/10.1086/381709
Martinha P. Manuela
A. Carlos C. A Ética na Inteligência Artificial: Desafios. [Presentation]
Conferência Ibérica de Sistemas e Tecnologias de Informação. Junho 2019.
Available from: http://hdl.handle.net/10400.26/29146
Oseias P. Desafios Éticos e Morais da Inteligência
Artificial. Available from:
https://www.intelligenzait.com/portal/desafios-eticos-e-morais-da-inteligencia-artificial/
Sparks &
Honey. AI Ethics and the Future of Humanity. Available from: https://medium.com/sparksandhoney/ai-ethics-and-the-future-of-humanity-9b05bc1df6b5#.vf0ag4j28
Luis L. A Inteligência
Artificial e as relações de trabalho. Available from: https://www.umov.me/inteligencia-artificial-etica-e-trabalho/

Comentários
Enviar um comentário